A interdição do futuro: o sequestro do debate público brasileiro pelo consórcio jurídico-midiático.


 

| Por: Pedro Doin |


À medida que o Brasil se aproxima da eleição presidencial de 04 de outubro, consolida-se uma operação política e ideológica de grandes proporções. Em vez de um debate programático soberano sobre os rumos do país, a cena pública encontra-se sitiada por uma ruidosa cortina de fumaça. A conversão do pleito em um interminável folhetim centrado no escândalo do Banco Master e nas tensões no Supremo Tribunal Federal (STF) não constitui um fenômeno jornalístico isolado ou casual: integra uma engrenagem jurídico-midiática que, sob o pretexto da informação, desloca o centro da disputa eleitoral e reedita a lógica do lawfare, agora mobilizada para atingir o campo progressista, blindar interesses políticos e econômicos e frear o favoritismo demonstrado por Lula. 


Essa disputa jurídico-midiática atua como um mecanismo de interdição. Ao transformar a política em escândalo permanente, desloca-se deliberadamente o olhar do eleitor para uma sucessão interminável de episódios, suspeitas e conflitos institucionais, enquanto se retira do centro da arena pública aquilo que deveria definir uma eleição presidencial: quais interesses serão protegidos, quais direitos serão ampliados e qual projeto de país será colocado em marcha. Nesse movimento, a fragilidade da candidatura da extrema-direita, encabeçada pelo senador Flávio Bolsonaro, e as graves suspeitas que a cercam são convenientemente diluídas pelo noticiário comercial. Porém, mais do que proteger um candidato, o objetivo político dessa engrenagem é impedir o confronto direto entre dois modelos de sociedade diametralmente opostos.


De um lado, o governo Lula 3 apresenta uma agenda fundada na reconstrução social, na soberania e no fortalecimento das garantias fundamentais. É o modelo que reequilibrou as contas públicas, conteve a inflação, reduziu o desemprego aos menores níveis históricos, retirou o país do Mapa da Fome e colocou o Brasil para crescer acima da média global. Sustentação material que é complementada por uma rede robusta de proteção social impulsionada por programas como Bolsa Família, Farmácia Popular, Gás do Povo, Minha Casa Minha Vida, Desenrola e Pé-de-Meia, bem como pela proposta do governo para o fim da escala 6x1, medida essencial para devolver dignidade e tempo de vida ao povo trabalhador.


Do outro lado, a oposição liderada por Flávio Bolsonaro rechaça abertamente a redução da jornada de trabalho com preservação dos salários e defende a retomada de uma agenda baseada em arrocho fiscal, juros altos e desmonte de direitos, como o fim do reajuste real do salário-mínimo e possíveis novas reformas trabalhista e da previdência social. Trata-se da reprodução local do colapso ultraliberal visto na Argentina de Javier Milei, onde a receita de austeridade irrestrita resultou na explosão da pobreza e no sucateamento do poder de compra. No Brasil, os defensores desse modelo justificam o estrangulamento dos investimentos públicos alegando a necessidade de conter o aumento da dívida pública. 


Esse argumento, contudo, desmorona diante do cenário internacional e das próprias condições da economia brasileira. Enquanto a dívida brasileira gira em torno de 80% do PIB, as principais economias do mundo superam a marca de 100% para financiar seu próprio desenvolvimento. E, no caso brasileiro, a pressão exercida pelo elevado serviço da dívida associado a uma das maiores taxas de juros reais do mundo torna ainda mais evidente que o debate fiscal não pode ser reduzido ao tamanho da dívida, como se não importasse quanto pagamos por ela nem quem se beneficia desse mecanismo.


O projeto de país que o consórcio reacionário tenta sufocar não se limita ao alívio econômico imediato, mas mira o futuro. A estratégia de Lula visa consolidar o Brasil como uma potência global soberana por meio da Nova Indústria Brasil, priorizando inovação tecnológica, transição energética e investimentos verdes. Permitir que essa discussão seja eclipsada por julgamentos midiáticos é abdicar do próprio destino nacional.


É preciso, portanto, devolver a eleição ao seu verdadeiro lugar, ou seja, para as mãos do povo brasileiro. Que cada eleitor, que cada eleitora, possa olhar para além da fumaça dos escândalos, comparar os projetos, reconhecer os interesses que estão em disputa e decidir conscientemente que Brasil quer construir. Porque uma eleição presidencial não deve servir para escolher qual escândalo ocupará as manchetes dos próximos quatro anos. Deve servir para escolher o futuro.


E é esse futuro que está em disputa nas urnas de outubro. Entre um projeto que aposta no desenvolvimento, na soberania, no trabalho e na justiça social e outro que oferece ao povo brasileiro austeridade, retrocesso e submissão aos interesses do mercado, a escolha não poderia ser mais fácil. O Brasil já sabe o que significa voltar para trás. Agora, precisa decidir se seguirá avançando.


Pedro Doin é advogado, mestrando em Políticas Públicas na UNESP Franca e presidente do Diretório Municipal do PT de Franca/SP


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A CIDADE QUE AINDA TEM SOLA, MAS PERDEU O RUMO. Um chamado para a construção de um projeto de desenvolvimento para Franca/SP e região.

Fiscalização ou espetáculo? Quando o vereador ultrapassa os limites do mandato.

Franca tem voz?