Franca tem voz?

 

| por: Pedro Doin |

A iniciativa do GCN e da ACIF, por meio da campanha “Franca Tem Voz”, cumpriu um papel fundamental ao expor ao público francano e aos associados da Associação Comercial e Industrial os pré-candidatos e candidatas a deputado/a estadual e federal. O exercício de escuta, dividido em dois blocos, sendo o primeiro com os 6 postulantes à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e o segundo com os 7 à Câmara dos Deputados, revelou não apenas as pautas, mas também as contradições e os alinhamentos políticos que marcarão a corrida eleitoral de 2026.

No entanto, ao final das duas sessões, uma pergunta incômoda permaneceu no ar: Franca tem voz, mas qual é a voz de Franca? A cidade falou por meio das pré-candidaturas, mas será que esses discursos correspondem ao que Franca realmente precisa? Ou estamos diante de uma sucessão de frases ensaiadas, descoladas dos desafios brutais que atravessam o município?


Os desafios reais que Franca não pode mais ignorar

Antes de avaliar as candidaturas, é preciso registrar o cenário que qualquer representante sério terá de enfrentar. Franca ostenta números que deveriam provocar vergonha e, ao mesmo tempo, urgência:

1. O sistema municipal de saúde, cada vez mais asfixiado, não consegue atender nem as demandas básicas da população. Filas, falta de leitos, ausência de especialistas e gestão ineficiente são a regra, não a exceção. A voz de Franca precisa cobrar um choque de gestão e, acima de tudo, recursos estaduais e federais compatíveis com a demanda real;

2. Uma das mais baixas rendas per capita de São Paulo. Isso significa pobreza estrutural, subemprego, informalidade e ausência de mobilidade social. Nenhum discurso ufanista sobre o "espírito empreendedor do francano" esconde esse dado. A voz de Franca precisa ser uma voz por geração de emprego de qualidade, qualificação profissional e atração de novos investimentos;

3. Franca arrecada muito aquém do necessário. Sem receita própria robusta, a prefeitura não investe, não faz manutenção, não atrai novas empresas e fica refém de repasses estaduais e federais insuficientes. A voz de Franca precisa estar afinada com a urgência de ampliar a base econômica, atrair negócios e diversificar a matriz produtiva;

4. Para aumentar a arrecadação e a renda, Franca precisa, inevitavelmente, investir em ciência, tecnologia e inovação. Isso significa articular governo estadual, agências de fomento, universidades (como a Unifran, a Unesp, a Facef e o futuro IFSP) com o setor privado. A cidade não pode mais viver apenas do passado, precisa de um projeto de futuro calcado na economia do conhecimento.

Esses são os problemas que qualquer candidatura a deputado estadual ou federal deveria ter na ponta da língua. E será que durante a entrevista tiveram?


Primeira parte: os malabarismos diante do governo Tarcísio

Um primeiro dado chamou a atenção: a unanimidade crítica aos graves problemas de gestão do estado de São Paulo sob o comando de Tarcísio de Freitas. Saúde precária, segurança em crise e educação desassistida foram temas recorrentes. No entanto, o modo como cada pré-candidatura tratou essa crítica expôs suas amarras políticas. Apenas a Professora Priscila (PT) e Marcos Ferreira (PSB) tiveram a coerência de apontar os problemas sem atenuantes, vinculando-os diretamente à ausência de ações efetivas do governador.

As demais quatro pré-candidaturas, visivelmente constrangidas, recorreram a verdadeiros malabarismos retóricos: reconheciam as falhas, mas se recusavam a atingir a figura de Tarcísio. A pergunta que fica é: como pretende-se enfrentar a crise da saúde estadual em Franca, a baixa arrecadação que depende de políticas estaduais de incentivo, ou a geração de renda que passa por investimentos do governo de São Paulo, se o compromisso político com o atual gestor impede a necessária cobrança? O eleitor atento percebe que a lealdade ao governador, muitas vezes meramente ideológica, tem prevalecido sobre a urgência de soluções.

Nesse cenário, a novidade positiva foi a pré-candidata Professora Priscila. Com grande assertividade, ela não apenas detalhou sua histórica luta pela educação especial inclusiva, como demonstrou domínio consistente sobre saúde, segurança, desenvolvimento regional e políticas públicas. Ao contrário dos demais, que pareciam evitar qualquer menção ao governo federal, Priscila trouxe com naturalidade as realizações do governo Lula para o centro do debate, mostrando que é possível conectar as esferas municipal, estadual e federal em benefício de Franca.


Segunda parte: Mariana Negri e Guilherme Cortez em destaque

No segundo bloco, voltado às pré-candidaturas a deputado federal, o padrão se repetiu: candidaturas excessivamente parecidas, discursos genéricos e pouca disposição para enfrentar os problemas estruturais que envolvem o governo Tarcísio e a omissão do Congresso Nacional. A exceção veio, novamente, de nomes mais à esquerda. Mariana Negri (PT) destacou-se pela clareza ao conectar as demandas locais às decisões tomadas em Brasília.

Mas o nome que sem dúvida apresentou o melhor repertório retórico e amplo domínio de todos os temas foi Guilherme Cortez (PSOL). Sua capacidade de articulação entre questões nacionais, estaduais e os interesses específicos de Franca impressionou. Cortez não apenas respondeu com precisão, como contextualizou cada problema dentro de uma visão estruturante de Estado, algo raro em pré-candidatos que ainda parecem ensaiar seus discursos.

Infelizmente, a maioria dos demais falhou em apresentar soluções concretas para os desafios francanos que listamos: aumento da renda média, ampliação da arrecadação municipal via atração de empresas, e articulação entre ciência, tecnologia e setor produtivo. Falaram em "desenvolvimento" como palavra vazia, sem explicar como seus mandatos em Brasília ou na Alesp fariam a diferença.


Um avanço importante: mais mulheres na disputa

Um dado positivo e que merece registro: diferentemente da campanha para a Prefeitura de Franca, quando Mariana Negri foi a única mulher entre 9 concorrentes, agora teremos 4 mulheres entre as 6 pré-candidaturas a estadual e 2 mulheres entre as 7 a federal. Trata-se de um avanço significativo para a representatividade feminina na política francana, ainda que o desafio seguinte seja transformar essa presença numérica em efetiva influência sobre os rumos da cidade, especialmente sobre problemas que afetam desproporcionalmente as mulheres, como a pobreza, a dupla jornada e o acesso precário à saúde.


A direita fragmentada e a frustração da ACIF

Por fim, é impossível não destacar o que ficou mais evidente ao longo de toda a entrevista: a direita de Franca segue profundamente fragmentada, sem projeto político consistente para o município e, pior, sem uma liderança incontestável para apresentar à população. Essa pulverização de nomes, muitos dos quais pouco preparados ou excessivamente personalistas, frustrou visivelmente uma plateia formada por associados da ACIF, que esperava ouvir propostas claras, viáveis e compromissos reais com o desenvolvimento econômico e social.

O caso da pré-candidata do Agro, Flávia Lancha, é emblemático. Ela consegue arrastar a atenção da COCAPEC e do setor produtivo, mas se recusa a abordar um dado brutal: o orçamento da Secretaria da Agricultura de São Paulo, gerida pelo aliado Tarcísio de Freitas, corresponde a apenas 0,49% do orçamento total do estado. Flávia fala muito em buscar melhorias para o agro francano, mas sua fala carrega um vazio estratégico: se o gestor estadual não muda, se a prioridade orçamentária não vem, o setor seguirá sonhando, e  apenas sonhando, com dias melhores. E sonho, por si só, não amplia arrecadação, não atrai empresas de tecnologia, não aumenta a renda média da população e nem resolve a crise na saúde.


A voz que Franca precisa

Franca tem voz, mas a voz que Franca precisa não é a voz do malabarismo político, do silêncio cúmplice ou do discurso vazio sobre desenvolvimento. A voz que Franca precisa é uma voz capaz de solucionar seus problemas mais urgentes.

A entrevista cumpriu seu papel ao dar visibilidade às pré-candidaturas francanas, mas também expôs as fragilidades do atual debate político local. Enquanto alguns preferem o silêncio cúmplice ou os malabarismos para não criticar o governador, outros, como Professora Priscila, Mariana Negri e Guilherme Cortez, mostraram disposição para o enfrentamento franco e propositivo.

A região de Franca precisa ampliar sua representação na ALESP e voltar a ocupar um cargo no legislativo federal, esse é o ponto de partida com o qual todas as forças políticas concordam. Mas Franca precisa de representantes que tenham coragem para dizer não quando for preciso, e para cobrar quando for devido. Precisa de vozes que sejam capazes de transformar os vergonhosos números da cidade em combustível para a mudança. Independentemente do espectro ideológico, o eleitor francano merece menos sonho vago e mais orçamento, menos fragmentação e mais projeto. Essa é a voz que Franca precisa.

Pedro Doin é advogado, mestrando em Políticas Públicas (UNESP-Franca) e Presidente do PT de Franca/SP.

Comentários

  1. Muito bem, Pedro . Sua análise sobre os graves problemas de Franca e as propostas dos pré candidatos para as soluções que a cidade precisa é bem certeira e lúcida.
    Sem dúvida, legislar a favor de Franca, sob o fascismo de Tarcísio vai exigir muita clareza e coragem de qualquer legislador!!

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  2. Pedro, bom texto, todavia, demasiado longo....

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