A CIDADE QUE AINDA TEM SOLA, MAS PERDEU O RUMO. Um chamado para a construção de um projeto de desenvolvimento para Franca/SP e região.
| por: Pedro Doin |
O documento "Subsídios para compreender e atuar no cenário político – A realidade da nova indústria brasileira e os desafios do PT", produzido pela Fundação Perseu Abramo, nos entrega uma chave de leitura preciosa para o momento nacional: não basta reconhecer a importância da indústria, é preciso disputar politicamente um projeto de neoindustrialização soberano, inovador e, acima de tudo, includente.
Mas, se em Brasília o debate sobre a Nova Indústria Brasil (NIB) ganha corpo com investimentos robustos e missões claras, em Franca o silêncio é ensurdecedor. Enquanto isso, o tempo passa, e a capital do calçado assiste, perplexa, ao esgotamento de um modelo que a tornou rica, mas que a condena hoje a ser uma das cidades com pior arrecadação fiscal per capita e renda média mais baixa entre os municípios de grande porte do estado de São Paulo.
A pergunta que recusamos calar é: para onde estamos indo?
A herança do Plano Real e a transição desordenada
A estabilização econômica promovida pelo Plano Real foi uma benção para o bolso do brasileiro, mas escancarou a fragilidade de nossa base produtiva local. A indústria calçadista de Franca, outrora motor absoluto, sofreu com a abertura comercial e a concorrência desleal de países com baixo custo de mão de obra.
Assim, Franca transitou, à força, de uma economia de base industrial para uma economia de serviços. No entanto, ao contrário do que sugere o desenvolvimento saudável, essa transição foi desordenada, não planejada e profundamente desigual. Abrimos mão do chão de fábrica sem construir um parque tecnológico robusto. Trocamos a carteira assinada do sapateiro pelo subemprego do aplicativo e do comércio de rua de baixo valor agregado.
Ainda hoje, a indústria tem peso significativo no PIB local, mas opera apenas como um legado estrutural. Sobrevive de inércia, de uma tradição de mão de obra especializada que está se aposentando e de uma infraestrutura que não se renova. O gerencialismo tupiniquim, baseado em cortar custos, apertar jornadas e reduzir direitos, se esgotou. Não há mais gordura para queimar.
O ouro escondido na vitrine digital
Se há um fenômeno que Franca não pode mais ignorar é sua transformação silenciosa em um dos polos mais relevantes de E-Commerce do país. Movidos pela resiliência e criatividade locais, pequenos e médios empreendedores, muitas vezes herdeiros da tradição calçadista, descobriram no mundo digital uma nova vitrine para o mundo. Franca hoje desponta como referência nacional em vendas online de calçados e artefatos de couro. Galpões de logística se multiplicam às margens das rodovias, e a cidade se tornou laboratório vivo da economia digital. No entanto, este fenômeno ocorreu, mais uma vez, sem planejamento e sem coordenação. O E-Commerce francano ainda opera com baixa integração entre as plataformas, os sistemas de logística reversa, a capacitação profissional para o marketing digital e a inteligência de dados.
É preciso enxergar esse movimento como uma missão estratégica de desenvolvimento local. Por que não transformar Franca em um hub nacional de inovação em logística e moda digital? Por que não articular as universidades (UNIFRAN, FACEF, FDF e UNESP) para criar um centro de pesquisa em comportamento de consumo digital, inteligência artificial aplicada à moda ou sustentabilidade na cadeia do E-Commerce? O potencial está aí, pulsando, mas sem direção.
A herança que pode salvar vidas: metalurgia para a saúde
Há, porém, uma oportunidade ainda pouco explorada e que pode recolocar Franca no mapa da indústria de alta tecnologia. Durante décadas, a cidade acumulou um impressionante parque metalúrgico e um know-how especializado em produção de máquinas, prensas, fôrmas e equipamentos para a indústria calçadista. Com a crise do setor, grande parte dessa capacidade instalada ficou ociosa ou subutilizada.
O que poucos percebem é que esse conhecimento em usinagem de precisão, tratamento de superfícies e manufatura de componentes metálicos é diretamente transferível para a produção de equipamentos médico-hospitalares. O documento da FPA é enfático ao destacar a Missão 2 da Nova Indústria Brasil: o complexo industrial da saúde, que prevê a ampliação da produção de medicamentos, vacinas, insumos e equipamentos.
Por que Franca não pode se transformar em um polo de produção metalúrgica para a saúde? Imagine a capacidade fabril local voltada para a fabricação de camas hospitalares, macas, cadeiras de rodas, mobiliário hospitalar, componentes para ventiladores pulmonares e até instrumentais cirúrgicos. Não se trata de fantasia. O BNDES já aportou bilhões em inovação, e as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) mostram que é possível articular Estado, universidades e indústria. Franca tem o chão de fábrica, tem a mão de obra qualificada e tem a localização estratégica. Falta apenas liderança política e coordenação.
O voo solitário que precisa virar voo coletivo: Franca e sua região
Um dos maiores equívocos do pensamento desenvolvimentista local é tratar Franca como uma ilha. Não somos. Somos o centro de um aglomerado urbano que inclui cidades como Batatais, Ituverava, Pedregulho, Cristais Paulista, Restinga, Patrocínio Paulista e tantas outras. Enquanto insistirmos em um projeto municipalista e autocentrado, continuaremos a perder oportunidades de integração produtiva, logística e inovadora.
É preciso que Franca assuma, de fato, o seu papel de polo regional. Isso significa articular cadeias produtivas com os municípios do entorno: absorver componentes e insumos produzidos na região, compartilhar infraestrutura de logística e E-Commerce, integrar políticas de qualificação profissional e atração de investimentos.
Mais do que isso, é urgente estreitar relações com o COMAM – Consórcio de Municípios da Alta Mogiana. O consórcio é o fórum natural para discutir um desenvolvimento regional coordenado. Por meio dele, podemos pensar em um plano de desenvolvimento econômico integrado, que dialogue com as vocações de cada cidade e que fortaleça a região como um bloco competitivo. Sozinhos, somos médios. Juntos, podemos ser grandes. O documento da FPA nos lembra que a coordenação é a palavra-chave. Que tal começarmos a praticá-la entre vizinhos?
A escola que ainda não chegou: o Instituto Federal de Franca
Nenhum projeto de desenvolvimento se sustenta sem formação de mão de obra qualificada. E aqui temos um dado muito relevante: Franca, com seu parque industrial histórico, seu polo de E-Commerce em expansão e suas vocações múltiplas, ainda não possui um Instituto Federal (IFSP).
O governo federal já sinalizou positivamente para a implantação de um IFSP em Franca. Mais do que isso: já existe local destinado para sua instalação. O que falta? Falta vontade política articulada, falta pressão organizada da sociedade civil, falta que os setores produtivos e sindicais entendam que um IFSP não é "coisa de governo", mas infraestrutura estratégica permanente para as próximas décadas. Enquanto o IFSP for reivindicação isolada do vereador do PT, a cidade tende a ficar no final da fila das contempladas.
Um Instituto Federal em Franca significaria cursos técnicos e tecnológicos alinhados às nossas demandas reais: logística e E-Commerce, metalurgia de precisão para equipamentos de saúde, gestão da moda e do couro, energias renováveis, automação industrial. Significaria pesquisa aplicada, extensão comunitária e, acima de tudo, um fluxo contínuo de jovens qualificados para o mercado de trabalho local. Sem isso, qualquer plano de desenvolvimento será um castelo de areia.
O custo político da descoordenação
Ora, o que diferencia uma cidade próspera de uma cidade em decadência não é apenas sua geografia, mas a capacidade de coordenação entre seus atores. O documento da FPA é categórico: "Para mim, a palavra que define uma boa política industrial é só uma: coordenação", afirma Reginaldo Arcuri. E é justamente isso que falta em Franca.
Sofremos de uma paralisia coletiva. O poder público municipal se perdeu em promessas de "governança" sem conteúdo estratégico. Os empresários, muitos ainda presos à lógica de concorrência predatória, raramente se unem em torno de um plano de longo prazo. O resultado está nas estatísticas: uma das piores arrecadações fiscais do estado e renda média muito abaixo de cidades de mesmo porte.
A força que vem da base: a rearticulação do Conselho Sindical
Há, porém, um sopro de esperança na reorganização da classe trabalhadora local. Apesar do desmonte vivido nos últimos anos, Franca testemunha um movimento vigoroso de rearticulação promovida pelo Conselho Sindical, que tem reunido entidades sindicais de categorias as mais diversas — do sapateiro ao comerciário, do metalúrgico ao servidor público — e de diferentes centrais sindicais (CUT, Força Sindical, UGT, entre outras).
Esse movimento ecoa o exemplo bem-sucedido da IndustriALL Brasil, citado no documento da FPA. Em Franca, o Conselho Sindical começa a romper a lógica isolada de "cada categoria por si" e a construir uma pauta comum, compreendendo que a destruição de um setor afeta toda a cadeia produtiva e, por tabela, toda a cidade.
Essa rearticulação é um ativo político de imenso valor. Os trabalhadores querem sentar à mesa para discutir requalificação profissional, transição justa, condicionantes sociais para o acesso a recursos públicos e a reconversão da mão de obra metalúrgica para a produção de equipamentos de saúde.
O futuro não será uma cópia do passado
Precisamos de lucidez. Não se trata de "voltar a ser o que era". A indústria calçadista de baixa tecnologia não voltará a empregar 50 mil pessoas diretas. A moda e o couro continuam importantes, mas não podem ser o único pilar. O documento da FPA nos lembra que a Nova Indústria Brasil está organizada em seis missões. Franca pode e deve se encaixar em pelo menos três delas: a Missão 2 (saúde), com a metalurgia para equipamentos hospitalares; a Missão 4 (transformação digital), com o polo de E-Commerce; e a Missão 3 (infraestrutura), com componentes metálicos para construção civil.
Precisamos de um Projeto Municipal de Desenvolvimento que dialogue com essas missões e que incorpore, de forma coordenada, o E-Commerce, a metalurgia para a saúde, a articulação regional via COMAM e a implantação urgente do Instituto Federal. A solução não virá de um decreto municipal isolado. Ela depende de uma concertação social que envolva:
Os setores produtivos, para pensar 2035 e não apenas o próximo balanço.
Os sindicatos, especialmente por meio do Conselho Sindical rearticulado.
As universidades (UNESP, UNIFRAN, FACEF, FDF) para mapear cadeias produtivas e propor inovação.
O terceiro setor, para garantir inclusão social.
Os consórcios regionais, como o COMAM, para integração territorial.
O preço da omissão
O seminário da FPA deixou um alerta de Uallace Moreira: "Destruir é muito fácil, mas construir é muito difícil." Em Franca, já vivemos a destruição silenciosa. Os empregos de qualidade sumiram; a juventude local migra; a violência encontra solo fértil na falta de perspectiva. Continuar o atual modelo de gestão, que é reativo, curto-prazista e descoordenado, é assinar o atestado de falência da nossa relevância econômica. O legado calçadista se esgota. O E-Commerce, sem planejamento, pode se tornar precarização. A metalurgia ociosa será vendida como sucata. A região seguirá desarticulada. E o Instituto Federal continuará sendo uma promessa adiada.
Ou construímos, coletivamente, um Plano de Desenvolvimento Local e Regional robusto, ou nos contentaremos em ser um museu de sapatos vazios, lembrados apenas pela história que tivemos, não pelo futuro que negamos construir. O futuro não espera e Franca precisa calçar seus passos em direção à inovação, à saúde, à educação profissional e à integração regional — ou dançará descalça sobre os cacos do seu próprio atraso.
Referência:
FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO (FPA). Subsídios para compreender e atuar no cenário político: a realidade da nova indústria brasileira e os desafios do PT – o futuro dos empregos. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2025. https://fpabramo.org.br/material/realidade-brasileira-fpa-nova-industria/
Pedro Doin é advogado, mestrando em Políticas Públicas (UNESP-Franca) e atual Presidente do PT de Franca/SP.

Ótimo texto introdutório ao tema!
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